Visitei os três territórios acima durante a travessia do “Grande Expresso do Oriente”, uma viagem de trem inspirada no lendário Expresso do Oriente pela Europa Central. A jornada foi desenhada pela agência brasileira Latitudes, pioneira nas viagens de conhecimento, cujo roteiro resultou em cinco episódios da 12ª temporada do CNN Viagem & Gastronomia.

Após sair de Zurique, na Suíça, passar por Salzburgo, na Áustria, e me encantar com a Eslovênia, segui viagem até a costa da Croácia, de onde parti para a Bósnia e Herzegovina e, depois, para o Kosovo. Essa foi uma das partes mais densas da viagem, com passagem por territórios ainda em adaptação, muitas vezes se curando de feridas deixadas por guerras recentes.

Entre o mar hipnotizante do Adriático e cidades que têm projetado um futuro harmonioso, onde a pluralidade parece prevalecer, o trajeto me revelou uma Europa Central muito mais enriquecedora do que imaginei, movida pela transformação. A seguir, compartilho meu olhar sobre os três territórios, entrelaçando história, atrações e, claro, boa mesa:

Croácia: entre o Adriático e as heranças de outros povos

Após me despedir da Eslovênia, a primeira parada foi Rovinj, na costa da península da Ístria, banhada pela beleza do Mar Adriático. É uma cidade pequena, mas grandiosa em história. Ao caminharmos sem pressa pelo porto e pela Cidade Velha, com ruelas estreitas e construções coloridas, é possível perceber semelhanças com a Itália. Não por acaso: a cidade pertenceu por séculos à República de Veneza.

Um desses resquícios é o Arco de Balbi, do século XVII, que fica na entrada da Cidade Velha. É um símbolo que diz muito sobre o passado. Os ouvidos mais atentos também distinguem que uma das línguas mais faladas nas ruas é o italiano.

“A Iugoslávia ocupava toda essa região. Mas antes dela há duas presenças conflitantes, o Império Austro-Húngaro e o Império Otomano, no começo do século XX. Antes mesmo disso, houve a presença da República de Veneza, que ocupava a região e monopolizava o que seria o comércio no Mar Adriático”, contextualiza Saulo Goulart, historiador que acompanhou a jornada.

Paisagem de Rovinj, na Croácia

Seguindo pela costa, a cidade de Pula foi outra localidade que visitei na Croácia. O grande atrativo é o Anfiteatro de Pula. É um dos anfiteatros romanos mais bem preservados fora da Itália e acomodava mais de 23 mil pessoas no seu auge.

A presença romana, aliás, é apenas uma entre várias: vieram depois os austríacos, mas a herança veneziana segue como a mais evidente. Como explica o guia local Goran Cvek, “esta parte do país é croata como qualquer outra, mas há camadas muito visíveis do passado”. Além da beleza de seu porto e praias, Pula ainda guarda resquícios como o Arco dos Sérgios, de 27 a.C., e o Templo de Augusto, dedicado ao primeiro imperador romano.

Bósnia: memória, convivência e reconstrução

No coração dos Bálcãs, Sarajevo, a capital da Bósnia e Herzegovina, vai se revelando aos poucos. São muitas histórias entrelaçadas, várias delas marcadas por conflitos. A visita deixa claro que tanto a cidade quanto o país ainda estão se recompondo, passando por um processo de transformação.

Conhecida como o “barril de pólvora da Europa”, foi em Sarajevo que o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, em 1914, desencadeou a Primeira Guerra Mundial. Décadas depois, voltou ao centro do mundo durante a Guerra da Bósnia, nos anos 1990, um dos conflitos mais violentos da história recente da Europa.

Durante séculos, vários impérios estiveram aqui, do Austro-Húngaro ao Otomano. Quando a antiga Iugoslávia se desfez, todas as diferenças vieram à tona de forma violenta. As feridas ainda estão aqui: nas chamadas “rosas de Sarajevo”, que lembram pontos atingidos por bombas durante o cerco de Sarajevo; nas paredes que carregam marcas de tiros; e em espaços de memória, como a Gallery 11/07/95, dedicada ao genocídio de Srebrenica, que deixou mais de 8 mil mortos em 1995.

Daniela Filomeno na rua Coppersmith Street, em Sarajevo, na Bósnia

Porém, percorrer Sarajevo hoje é testemunhar uma cidade em reconstrução, onde a multiculturalidade é pulsante. Em poucos metros, encontramos minaretes, igrejas ortodoxas, catedrais católicas e sinagogas. A Catedral do Sagrado Coração de Jesus, de 1889, é um dos exemplos mais notáveis, assim como uma sinagoga de 1582, que abriga atualmente o Museu dos Judeus da Bósnia e Herzegovina.

Entre um passeio e outro, vale sentar em um bar, pedir uma cerveja local e provar o tradicional ćevapi, herança da influência otomana. O pão vem com carne bovina ou de cordeiro, creme de leite e cebola crua. A dica é adicionar a Sarajevska Pivara ao roteiro, uma cervejaria de 1864. Tornou-se um dos símbolos de resistência e esperança da cidade ao fornecer água para a população durante o Cerco de 1992.

Na Coppersmith Street, batizada oficialmente de Kazandžiluk, lojinhas típicas vendem produtos de cobre. Os kits de café feitos à mão, símbolo de um hábito enraizado no país, são os itens mais vendidos, alguns feitos até com restos de munição, dando um novo significado ao material.

Kosovo: identidade e novos caminhos

Por fim, a última parada deste trecho da viagem ocorreu em Pristina, a capital do Kosovo, um dos territórios mais complexos da Europa contemporânea. O território declarou independência da Sérvia em 2008, mas ainda não é reconhecido por todos os países, incluindo o Brasil. Isso mantém a região no centro de tensões geopolíticas.

Na capital, o Boulevard Nëna Tereza, ampla zona para pedestres que atravessa o centro, pulsa com cafés, restaurantes e uma arquitetura marcada pelo brutalismo. Aqui fica o Heroinat Memorial, monumento formado por mais de 20 mil pinos que homenageiam mulheres vítimas de violência de forças da Sérvia durante a guerra no fim dos anos 1990.

Monumento em Pristina, no Kosovo

Os sabores da cidade também surpreendem. No restaurante Soma Slow Food, que fica em meio à natureza, em um vale, a proposta é desacelerar com ingredientes de produtores locais, pães artesanais e pratos tradicionais, como a pita e carnes preparadas no fogo, acompanhadas por vinhos da própria região. Vale a viagem.

A cidade também revela sua identidade por meio da arquitetura. A Biblioteca Nacional do Kosovo é um dos endereços mais emblemáticos do território. Ela esbanja 99 cúpulas brancas e mescla influências modernistas, bizantinas e otomanas. Construída em 1982, quando o Kosovo ainda fazia parte da antiga Iugoslávia, a biblioteca representa a diversidade cultural e espiritual da localidade.

A poucos quilômetros de Pristina, o Mosteiro de Gračanica, do século XIV, é um Patrimônio da Unesco que nos oferece outra perspectiva do Kosovo. Os afrescos, que retratam passagens bíblicas em milhares de figuras, resistiram a vários bombardeios. Saber disso ajuda a dar ainda mais profundidade ao passado e à resistência da região.

 

 

 

 

Fonte: CNN Brasil