Não é por acaso que uma certa nostalgia pelos anos 90 e início dos anos 2000 anda rondando a moda, beleza e cultura pop. Essas décadas marcaram a adolescência e juventude de uma geração que, hoje, está no topo da cadeia de consumo: a geração X. E o mercado de perfumes, atento a esse movimento, também passou a revisitar essas memórias coletivas.
Mas o que mais tem chamado a atenção é a forma como a perfumaria de nicho está fazendo essa leitura, traduzindo os estados de espírito que marcaram as décadas de 90 e começo dos 2000 para criar fragrâncias atuais e autorais. “A nostalgia de 2026 não busca reproduzir os perfumes do passado. Ela procura recriar o zeitgeist da época, a emoção coletiva que aquelas fragrâncias provocavam naquele momento”, explica Renata Aschar, especialista em perfumes e autora do Guia de Perfumes. “Os anos 90 falavam de limpeza emocional, liberdade minimalista e individualidade silenciosa. Já os anos 2000 celebravam autoestima, excesso, brilho e prazer sensorial.”
É impossível falar desse movimento sem lembrar do impacto cultural de perfumes como CK One, lançado em 1994, que transformou a ideia de perfume compartilhável, minimalista e sem gênero definido. Ou de L’Eau d’Issey, que ajudou a consolidar a estética aquática transparente como sinônimo de modernidade sofisticada. “Nos anos 90 e 2000, certos perfumes não apenas venderam, mas mudaram comportamento”, explica Renata Aschar.
“Angel, de Thierry Mugler, inaugurou a era gourmand como manifesto. Não era só um perfume, era personalidade líquida”, diz o nariz Fabio Navarro. Ele conta que os anos 2000 transformaram o perfume em ferramenta de branding pessoal. “Ser lembrada pelo cheiro passou a importar tanto quanto a bolsa ou o salto.” Hoje, esses códigos reaparecem em composições mais abstrata, conceituais e refinadas.
Vem daí o fascínio atual pelos chamados skin scents, pelos musks limpos, pelos aquáticos contemporâneos, mais minerais, e pelos gourmands ultra sensoriais. Baunilha, pele limpa, flores transparentes… Estamos sentindo cheiro de memória. “Se ontem o desejo era novidade, hoje é por lembrança reinterpretada”, diz Fabio Navarro. “Os perfumes nostálgicos traduzem emocionalmente arquétipos olfativos de uma geração inteira. É como revisitar a juventude com um guarda-roupa couture: a emoção permanece, mas a linguagem amadureceu.”
Essa perfumaria fala sobre conforto emocional, sobre relembrar, por meio de novas combinações, sensações que remetem à adolescência, aos primeiros amores, às baladas do começo dos anos 2000 ou à estética minimalista dos anos 90. São perfumes com aroma afetivo, especialmente para a geração X. Não é o mesmo cheiro. Mas tem ali um gatilho que abre a porta para o reconhecimento de uma emoção vivida.
Fonte: Vogue

