As chamadas “canetas emagrecedoras”, os medicamentos como semaglutida e tirzepatida, diminuem o apetite e aumentam a sensação de saciedade, levando as pessoas a comerem menos. Diante dessa redução no consumo de alimentos, uma dúvida frequente é: quem usa esses medicamentos precisa tomar suplementos? Para responder, ouvimos a nutricionista Juliana Saldanha, da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica), e o médico endocrinologista Paulo Miranda, ex-presidente e atual coordenador da Comissão Internacional da SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia).
A necessidade de suplementação é individual
Os dois especialistas concordam é que não existe uma regra geral: nem todo paciente que usa essas medicações precisa suplementar. Juliana explica que a indicação depende de uma avaliação individualizada, de acordo com a necessidade de cada paciente. Paulo reforça o que, de fato, é universal no tratamento: o manejo adequado dos efeitos adversos, orientações sobre hidratação e organização da alimentação no dia a dia. Segundo ele, o uso de suplementos, assim como as mudanças de hábito e a estruturação da rotina alimentar, é sempre individualizado, e não uma etapa obrigatória para todos.
Por que o apetite reduzido pode gerar deficiências nutricionais
Com a queda expressiva do apetite, um efeito comum dessas medicações, o risco de consumir menos proteínas, vitaminas e minerais aumenta. “Com a redução expressiva do apetite o paciente tende a ingerir uma quantidade muito aquém das suas necessidades nutricionais, seja por falta de planejamento, de acompanhamento nutricional ou até de lembrança, já que muitos pacientes relatam passar horas sem lembrar que precisam comer”, explica a nutricionista.
As deficiências mais comuns em que usa canetas emagrecedoras
Segundo Juliana, as deficiências durante o tratamento podem envolver desde macronutrientes (carboidratos, proteínas e gorduras) até micronutrientes (vitaminas e minerais) e fibras. Na prática clínica, ela destaca três nutrientes que aparecem com mais frequência como deficientes nesses pacientes: vitamina B12, vitamina D e, em alguns casos, cálcio.
Paulo acrescenta que o acompanhamento também deve considerar o ferro, embora a necessidade de suplementação seja menos comum nesse caso, já que geralmente não há grandes desvios na capacidade de absorção, diferente do que se observa, por exemplo, na cirurgia bariátrica. Ele também cita a vitamina B12 e o ácido fólico como nutrientes que precisam ser monitorados e suplementados quando necessário, além do uso eventual de polivitamínicos em pacientes com maior perda de peso ou restrição mais intensa do apetite.
Exames: o ponto de partida e o acompanhamento contínuo
Paulo explica que os exames complementares são importantes desde o início do tratamento, para que o médico tenha uma visão completa da saúde do paciente — somada à anamnese, ao histórico familiar, a alergias e ao exame físico — e possa traçar o plano terapêutico.
Ao longo do acompanhamento, novos exames ajudam a monitorar aspectos que podem se alterar não diretamente pelo efeito da medicação, mas pela própria perda de peso: função hepática, função renal, glicose, hemoglobina glicada, perfil lipídico e hemograma, entre outros.
Dá para suprir as necessidades só com a alimentação?
Apesar das deficiências possíveis, Juliana defende que é totalmente possível e preferível suprir as necessidades nutricionais apenas com a alimentação, mesmo comendo menos. “A alimentação com comida de verdade e o mínimo de ultraprocessados ou suplementos industrializados deve ser a meta inicial de qualquer tratamento com foco em saúde”, ressalta a nutricionista.
Ela chama atenção para um mito que, segundo ela, precisa ser desconstruído: o de que a medicação substitui qualquer outra intervenção no tratamento da obesidade, inclusive nutrição e exercício físico. Para Juliana, o medicamento deve ser entendido como um aliado dentro de uma abordagem mais ampla e multidisciplinar, não como o único pilar do tratamento.
O tratamento vai além da medicação
De acordo com Paulo Miranda, hidratação, sono de qualidade, prática de atividade física, organização e orientação alimentar baseada em uma alimentação saudável e, quando necessário, a suplementação, fazem parte do contexto global do cuidado com o paciente. É justamente por isso, segundo ele, que o acompanhamento médico e multidisciplinar é essencial ao longo de todo o tratamento com esse tipo de medicação.

