Uma pintura, uma ópera, um filme – qualquer obra de arte que se preze – recompensa seus espectadores na medida em que conseguem enxergar além: entender a época e o lugar em que ela foi produzida, desvendar o universo dos autores, deixar-se acometer pelas emoções que desperta. O mesmo, acredito, pode ser dito a respeito dos trabalhos de arquitetura e vestuário mais relevantes: entende e desfruta mais quem tem no repertório recursos para isso. O fato de os campos da moda e da arquitetura – ou sua vertente mais íntima, o design de interiores – não se limitarem à fruição estética, mas, antes, terem sempre uma função primordial a exercer, não deveria fazer deles artes menores. Aliás, muito pelo contrário.

Na relação entre moda e casa, além de terem o design como ponto de partida incontornável, existe algo mais importante que as une: roupa e décor são duas das mais poderosas e acessíveis ferramentas de que dispomos para expressar quem somos. Guarda-roupa e sala de estar tornam-se extensões naturais de identidades e individualidades. Daí a razão para, de quando em quando, examinarmos essa afinidade mais de perto, como fazemos neste número da Casa Vogue, focado em personagens do mundo da moda.

Isabeli Fontana — Foto: André Klotz | Estilo: Adriana Frattini | Produção: Bruna Scapim
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Figuras como Isabeli Fontana, estrela brasileira de brilho incessante nas passarelas, editoriais e campanhas das maiores marcas do planeta há mais de 20 anos, que divide com o marido e músico, Di Ferrero, um colorido e aconchegante apartamento em São Paulo, lugar onde se encontram e se refugiam quando a agenda de viagens frequentes de ambos permite (a moda não dá muita chance para a rotina…). Ou como o famoso e exagerado Christian Louboutin, cujo lar em Paris oferece um vislumbre da mente inquieta que o levou a desenhar alguns dos sapatos mais desejados do globo. Ou ainda como Wes Gordon, diretor criativo da Carolina Herrera, que viu no design de interiores de sua morada em Nova York uma espécie de escapismo, uma oportunidade para “ser criativo sem as responsabilidades” que a profissão de estilista lhe impõe.

Não é exatamente novidade que o mercado de luxo hoje – capitaneado pelas grandes grifes – não vende mais objetos isolados, sejam roupas, joias, móveis. Vende, antes, a tal da experiência imersiva. Um dos setores onde essa visão se faz mais perceptível é o do turismo e da hospitalidade. E não há melhor exemplo do que o da transformação dos hotéis, trens e barcos da Belmond desde sua aquisição pelo grupo LVMH – assunto da reportagem Viagem fashionista, de Juliana A. Saad, que certamente vai inspirar muitas férias nos próximos meses.

Movimentos mercadológicos, porém, são só reflexos de questões mais amplas. O longevo casamento da moda com a decoração atravessa uma fase intensa também por causa da nossa vida cronicamente digital: nas redes, estar na rua ou em casa não faz diferença, desde que todos os nossos cenários e looks respondam ao impulso humano de imprimir significado a tudo o que se vê. Roupas, tanto quanto interiores, só servem se forem vestíveis e habitáveis física e simbolicamente. Boa leitura!

Fonte: Casa Vogue