Estudo com 25 mil pacientes virtuais aponta possível redução no tempo de ação da toxina botulínica entre usuários de medicamentos como semaglutida e tirzepatida. Resultado, porém, ainda precisa ser confirmado em pessoas reais.

 

Medicamentos como semaglutida e tirzepatida, usados no tratamento da obesidade e do diabetes, podem diminuir o tempo de duração da toxina botulínica? Um estudo publicado em 2025 levantou essa possibilidade, mas os próprios pesquisadores alertam: ainda não há comprovação de que isso ocorra em pacientes reais.

Liderado pelo pesquisador E. Rahman, o trabalho utilizou um modelo computacional para simular a resposta de 25 mil pacientes. Desse total, 20 mil representavam pessoas tratadas com toxina botulínica para enxaqueca crônica e 5 mil, pacientes que receberam a aplicação no masseter, músculo localizado na lateral da face.  A simulação analisou quatro medicamentos: semaglutida, liraglutida, dulaglutida e tirzepatida. Em todos os grupos, o tempo estimado de ação da toxina foi menor do que entre aqueles que não usavam esses remédios.

“O estudo chama atenção para uma possível relação que ainda conhecemos pouco. No entanto, é fundamental deixar claro que foram analisados pacientes virtuais. O trabalho levanta uma hipótese, mas não comprova que os medicamentos façam a toxina durar menos”, explica o dermatologista da clínica Singular, Wesley Ferreira.

O que o estudo encontrou

Na simulação sobre enxaqueca crônica, o efeito da toxina botulínica durava, em média, 14 semanas. Entre os grupos expostos aos medicamentos, esse período caiu para algo entre 11,8 e 12,6 semanas.  A tirzepatida apareceu associada à maior redução estimada, enquanto a semaglutida apresentou a menor. Essa diferença, entretanto, também foi observada apenas no modelo computacional e não deve ser interpretada como uma regra para os pacientes.

“Não podemos concluir que quem usa tirzepatida terá necessariamente uma duração menor do Botox, nem que a semaglutida provocará menos interferência. Para estabelecer essa relação, será necessário acompanhar pessoas reais e comparar os resultados ao longo do tempo”, ressalta o médico.

Como os medicamentos poderiam interferir?

A toxina botulínica reduz temporariamente a comunicação entre os nervos e os músculos, diminuindo a contração muscular. Com o passar dos meses, essa comunicação é restabelecida e o efeito desaparece gradualmente. Já os medicamentos relacionados ao GLP-1 atuam na saciedade, no controle da glicose e no processo de perda de peso. De acordo com os autores, alterações no metabolismo, redução da massa magra e mudanças na recuperação neuromuscular poderiam interferir no tempo de ação da toxina.

Uma das hipóteses envolve a proteína SNAP-25, que participa da comunicação entre nervos e músculos e também está relacionada ao mecanismo de ação da toxina botulínica.

“São explicações biologicamente possíveis, mas que ainda não foram comprovadas diretamente no organismo humano por esse estudo. A pesquisa mostra um caminho que precisa ser investigado, não uma resposta definitiva”, afirma Wesley Ferreira.

Por que o Botox pode durar menos?

A duração da toxina botulínica varia de uma pessoa para outra e depende de vários fatores. A região tratada, a força dos músculos, a dose, o produto utilizado, a técnica de aplicação e as características do próprio organismo podem influenciar o resultado. Por isso, se o paciente perceber que o efeito terminou mais cedo, não deve atribuir automaticamente a mudança ao medicamento emagrecedor.

“Quando alguém relata que o Botox durou menos, precisamos avaliar o contexto completo. É importante saber quais medicamentos a pessoa utiliza, se houve perda rápida de peso ou de massa muscular, qual região foi tratada, qual dose foi aplicada e como foram os resultados anteriores”, explica o dermatologista.

Não há indicação para suspender o tratamento

O estudo não recomenda interromper os medicamentos antes da aplicação da toxina botulínica. Também não oferece respaldo para aumentar a dose ou reduzir automaticamente o intervalo entre os procedimentos.

“Um tratamento indicado para obesidade ou diabetes não deve ser suspenso na tentativa de prolongar o efeito de um procedimento estético. Qualquer mudança no uso do medicamento deve ser discutida com o médico responsável pela prescrição”, orienta o especialista.

Por enquanto, a principal contribuição do trabalho é chamar a atenção para a necessidade de uma avaliação mais completa. Se a relação for confirmada em pesquisas com pacientes reais, o uso desses medicamentos poderá se tornar mais um fator considerado no planejamento dos procedimentos.

“A resposta à toxina botulínica não depende apenas do produto aplicado. O estado de saúde, a composição corporal e os medicamentos utilizados também podem influenciar o resultado. O estudo abre uma discussão importante, mas ainda não muda a conduta clínica”, conclui o dermatologista da clínica Singular.

Fonte: Divulgação