Restaurar um dos imóveis históricos mais importantes da Inglaterra parecia ser uma missão capaz de reunir apoio da comunidade. No entanto, a tentativa de recuperar a Parnham House, uma mansão de quase 500 anos localizada em Beaminster, no condado de Dorset, transformou-se em um intenso embate entre preservação do patrimônio e proteção da vida selvagem.

O empresário britânico James Perkins, responsável pelo projeto, afirma ter sido apelidado de “anticristo” por moradores contrários aos planos de expansão da propriedade.

A controvérsia não está relacionada à recuperação da casa em si, mas a um empreendimento imobiliário que James considera essencial para financiar a obra. Segundo ele, a receita obtida com a construção de novas residências seria a única forma de garantir a restauração completa do edifício histórico, gravemente danificado por um incêndio em 2017.

Vista aérea da Parnham House evidencia a dimensão da propriedade, onde o dono pretende construir novas moradias para ajudar a financiar a restauração da mansão histórica — Foto: Divulgação

A Parnham House é uma mansão elisabetana tombada como Grau I, o mais alto nível de proteção do patrimônio histórico britânico. Ao longo dos séculos, passou por diferentes intervenções, incluindo uma remodelação assinada por John Nash, arquiteto conhecido por projetos como o Palácio de Buckingham.

Em abril de 2017, um incêndio de grandes proporções destruiu boa parte da construção. As chamas levaram quatro dias para serem completamente controladas pelos bombeiros. Na época, o então proprietário, o financista austríaco Michael Treichl, chegou a ser preso sob suspeita de incêndio criminoso. Meses depois, porém, ele morreu após ser encontrado no Lago de Genebra. De acordo com relatos da época, Michael enfrentava um quadro de depressão.

Um investimento milionário

James Perkins e sua esposa, Sophie, adquiriram a propriedade em 2020 por 2,5 milhões de libras, cerca de R$ 18,5 milhões na cotação atual. O casal já havia restaurado outras quatro propriedades históricas na Inglaterra e decidiu assumir o desafio de recuperar a Parnham House.

O orçamento previsto para a obra, porém, é muito superior ao valor de compra. O homem estima que serão necessários cerca de 25 milhões de libras, aproximadamente R$ 185 milhões, para devolver a mansão ao estado original.

James Perkins e a esposa, Sophie, ao lado dos filhos em frente à Parnham House. O casal comprou a propriedade em 2020 e estima investir cerca de R$ 185 milhões para restaurar a mansão do século 16 — Foto: Divulgação

Até agora, os gastos já ultrapassam 9 milhões de libras, cerca de R$ 66 milhões. Apenas a estrutura de andaimes instalada para estabilizar o edifício custou 1,2 milhão de libras (R$ 8,9 milhões). Outros 8 milhões de libras, quase R$ 59 milhões, foram destinados a obras emergenciais para impedir o colapso da construção, além de estudos técnicos, projetos, consultorias especializadas e processos de licenciamento.

Enquanto a restauração segue em andamento, James e Sophie vivem há dois anos a ala oeste da propriedade, uma parte preservada da residência com cinco quartos.

O projeto prevê recuperar a casa principal com mais 12 quartos e criar outras 33 acomodações para hóspedes, incluindo chalés às margens do rio e uma casa de barcos. A proposta busca transformar o complexo em um empreendimento economicamente sustentável, capaz de gerar recursos para sua manutenção permanente.

Um restaurante instalado na propriedade já entrou para o Guia Michelin, reforçando a estratégia de diversificar as fontes de receita do local.

O jardim formal da Parnham House, com topiarias geométricas e caminhos simétricos, faz parte da paisagem histórica da propriedade, que ocupa cerca de 53 hectares em Dorset, na Inglaterra — Foto: Divulgação
Condomínio de luxo divide opiniões

A maior controvérsia envolve um novo projeto apresentado por James ao Conselho de Dorset. O plano prevê a construção de 82 residências em uma área de aproximadamente 8,5 hectares (21 acres), localizada dentro da propriedade de cerca de 53 hectares (131 acres).

Segundo o empresário, o condomínio é fundamental para cobrir a diferença entre os custos da restauração e os recursos disponíveis. Sem essa receita adicional, ele afirma, seria impossível concluir a recuperação da mansão.

Em entrevista ao The Times, o homem defendeu que proprietários que assumem a responsabilidade de recuperar patrimônios históricos deveriam receber mais incentivos. “Pessoas como eu precisam ser encorajadas e sinto que estamos sendo desencorajadas”, declarou.

Ao comentar a reação de parte dos moradores ao projeto, ele disse que a oposição tem sido intensa. “Os NIMBYs acham que você é o anticristo. Pode ser uma jornada solitária”, declarou, usando a sigla da expressão em inglês Not In My Back Yard (não no meu quintal) para se referir a pessoas que rejeitam empreendimentos próximos de suas casas, mesmo quando reconhecem sua necessidade.

O empresário também rebateu as críticas de quem questiona a construção do condomínio. “Não estou construindo no jardim da frente de vocês, é o meu jardim”, ele disse ao jornal.

James ainda contou que precisou contratar diversos especialistas para responder a pequenas objeções apresentadas durante o processo de licenciamento, incluindo análises ambientais detalhadas e estudos sobre a vegetação existente. De acordo com ele, os recursos gastos com essas exigências poderiam estar sendo direcionados para a recuperação da mansão.

A Parnham House é uma das mansões elisabetanas mais importantes da Inglaterra, construída em 1552 e hoje em processo de restauração após o incêndio devastador de 2017 — Foto: Divulgação

Ambientalistas contestam proposta

Os moradores e ambientalistas, entretanto, têm uma visão bastante diferente. Eles argumentam que a área escolhida abriga um importante ecossistema, onde vivem espécies protegidas, como corujas-das-torres, lontras, ratos-do-campo e cobras-d’água. Entre os animais está um raro grupo de texugos albinos que se tornou símbolo da região.

Um dos exemplares, apelidado de Alberto, foi resgatado em 2015 e acabou despertando a atenção dos moradores. Desde então, outros indivíduos com a mesma característica genética passaram a ser observados na área, tornando o território um habitat considerado excepcional para a conservação da espécie.

Em nota, a Dorset Natural Heritage Initiative afirmou que a área vai muito além de um terreno disponível para construção. “O campo não é apenas um espaço verde, é o lar de uma das visões mais raras do Reino Unido: uma população regular de texugos albinos”, declarou a entidade.

Segundo a organização, esses animais passaram a ocupar a região de forma mais intensa durante os períodos de isolamento da pandemia de Covid-19 e hoje dependem do ambiente preservado para sobreviver.

O que prevê o projeto

Os representantes de James Perkins sustentam que a construção das novas moradias é indispensável para garantir a viabilidade financeira da restauração da Parnham House.

O empreendimento foi inspirado em Poundbury, cidade planejada idealizada pelo rei Charles III em terras do Ducado da Cornualha, próxima a Dorchester. As residências foram projetadas para incorporar elementos arquitetônicos presentes na mansão histórica, como vitrines, pináculos e ameias.

Como medida de compensação ambiental, o projeto prevê o corte de 14 árvores, o plantio de outras 80 e intervenções para restaurar as margens do rio.

Em comunicado enviado às autoridades de planejamento, os representantes do empresário afirmaram que “o objetivo primordial é conservar e restaurar esta casa excepcionalmente importante, classificada como Grau I, garantindo seu futuro e permitindo que volte a ser o coração da comunidade local”. Segundo eles, o empreendimento foi concebido justamente para suprir a diferença entre os recursos disponíveis e os elevados custos da restauração.

O pedido segue em análise pelo Conselho de Dorset. A expectativa é que uma decisão sobre o futuro do empreendimento seja anunciada ainda este ano.

Fonte: Casa e Jardim